Viver em Sociedade: O trabalho do corpo

 

Vivemos actualmente num mundo estereotipado que dá importância à plena forma física, em detrimento de tudo aquilo que é verdadeiramente importante. Hoje, em todo o lado, há quem se preocupe com a sua aparência, procurando atingir patamares inatingíveis, desleixando-se em campos que são fundamentais para alcançar o estado que tanto ambicionam mas que na prática não passa pelo corpo, antes pela mente.
Ter um corpo escultural, esculpido cuidadosamente nas longas horas de ginásio e graças aos muitos anabolizantes facilmente encontrados à venda, é uma meta atingível para muitos, impensável para outros, mas no fundo, um mal necessário na procura de um lugar ao sol nas conturbadas regras e preferências da nossa sociedade. Se olharmos bem à nossa volta constataremos que são poucos aqueles que, dotados de corpos de causar inveja, têm trabalhos comuns. Muitos dedicam anos da sua vida na procura incessante do corpo perfeito, com o único objectivo de assim terem um passaporte para uma vida mais fácil, nem que seja de aparências. Modelos, actores, bailarinos, apresentadores, relações públicas, são estes e tantos outros trabalhos que fazem parte do vasto leque de ambições de quem possui um corpo trabalhado e tenta vencer na vida às suas custas. Esquecem-se porém, daquilo que é inevitável e que o tempo se encarregará de lembrar: nada é para sempre.
Nas vidas de quem luta contra o passar dos anos e o rumo natural da vida, sofrer com os sinais tempo pode ser algo que jamais consegue ser ultrapassado, acabando por ser interpretado com um claro retrocesso na luta pelos seus objectivos. Envelhecer é uma palavra que não consta nos seus dicionários e ver o corpo a “desmoronar” causa mais problemas psicológicos do que físicos. É uma vida inteira perdida, uma batalha invencível e que não pode ser travada. Muitos têm a vida que sempre escolheram. Outros, como se diz, morrem na praia a tentar. Porém, não serão os únicos que lutaram pelo seu lugar ao sol através da forma física. Há muitos que o fazem e cada vez há mais. Enquanto não perceberem que o corpo não pode ser considerado um meio de trabalho, ou passaporte garantido para um, a sociedade jamais evoluirá. Afinal, para desempenhar qualquer que seja o papel na escola da vida é fundamental existir aquilo que é sempre relegado para último lugar na tabela das importâncias, talento e, essencialmente, saúde!

Anselmo Oliveira 

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